terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Patagônia 2008 - Brasileiros na Agulha Rafael Juarez

Edemilson Padilha e Valdesir Machado em mais uma temporada na Patagônia Argentina, Parque Nacional Los Glaciares, aproveitando uma super janela de bom tempo, iniciaram uma longa jornada por alguns dos cumes mais desejados pelos escaladores alpinos, começando sua epopéia pela Agulha Rafael Juarez.




Dia 17 de janeiro pisamos em El Chaltén, esta vila incrustada no coração da Patagônia Argentina e das montanhas mais perfeitas do mundo. Havia uma euforia geral, todos empolgadíssimos com uma janela de bom tempo que começara há dois dias. Imaginei que a havíamos perdido, pois as janelas aqui não duram normalmente mais que 48 horas, mas me garantiam que persistiria por alguns dias mais, o que era um pouco estranho. Apressamo-nos em arrumar tudo e sair imediatamente rumo às montanhas.
Como de costume planejamos nosso ataque com a estratégia rápido e leve. Partimos na madrugada do dia 19, com noite estrelada e fria. Bastou 3 horas de caminhada para percebermos que estávamos muito cansados pela viagem e que também estávamos perdidos. O tempo passava e a cada segundo percebíamos que a janela de bom tempo também estava nos escapando. Se não chegássemos à base da via cedo não poderíamos nem entrar na via. Que lástima, esperamos tanto tempo por aquela oportunidade e a jogamos fora por uma bobagem, por um pequeno detalhe, a caminhada de aproximação. Ainda antes de amanhecer encontramos o caminho por aquele mar de gelo e rochas. O dia apresentava-se irritantemente perfeito, céu azul, sem vento, até a base da Agulha Rafael Juarez, onde depositamos nossos equipamentos de escalada para retornar em uma próxima janela. Foram 24 horas de atividade, de muito cansaço e erros de estratégia. Aprendemos que a Patagônia sempre tem algo a nos ensinar, por mais que tenhamos um certo conhecimento, temos de estar abertos a novos aprendizados, olhando estas montanhas com humildade e respeito.



Lição aprendida, de volta a Chaltén nos inteiramos que a janela persistiria. Não podíamos acreditar, o que será que havia acontecido com o tempo instável e tormentoso da região? Descansamos dois dias e voltamos, agora mais preparados, leves e com mudanças na estratégia: um bivaque intermediário para poder aproveitar melhor estas janelas gigantes de bom tempo. Chegamos sem tropeços ao Bivaque Polaco (ponto de acampamento para as vias da face oeste do cordão do Fitz Roy), que fica a apenas 3 horas de caminhada da via Anglo Americana, na Agulha Rafael, nosso primeiro objetivo. Montamos aí nosso Acampamento Base Avançado e iniciamos o monitoramento da pressão atmosférica para verificar possíveis mudanças, o que influenciaria no clima. Do momento em que chegamos até quando iniciamos nossa caminhada de aproximação para a agulha não houve alterações na pressão, indicação de tempo perfeito.
Estávamos muito ansiosos por aquela escalada, no ano anterior havíamos viajado por 40 dias e não havíamos posto as mãos em uma pedra. Desta maneira a caminhada de aproximação mostrou-se interminável e quando estávamos próximos à base vimos que havia uma cordada entrando na via. Há sempre duas interpretações para estar aí com mais uma equipe adiante: uns falam que é mais seguro outros que é perigoso pelo fato de que em vias alpinas sempre caem pedras. Prefiro tomar como algo normal e esperar algo positivo do acontecido.No início da escalada nos enroscamos em uma parte meio obscura do croqui (mapa da via), que na verdade não era nada mais que um traço na gigante parede. Segui umas fissuras lindas em uma diagonal para a esquerda em direção a uma grande fenda que formava um diedro entre a parede principal e a rampa onde estávamos. Esperava encontrar alguma colocação de friends (peças que colocamos em fissuras para proteger-nos de possíveis quedas) naquele off widt (fenda larga que não chega a ser uma chaminé), porém não havia possibilidades com aqueles friends que levávamos. Tivemos que retornar a seguir mais à direita até alcançarmos o colo entre o cume em que estávamos e o principal.



As duas cordadas finais foram impressionantes, muito verticais, com graduação passando por um 7a (graduação brasileira). Ficaram a cargo do Val (Valdesir Machado), que as guiou com perfeição e rapidez. A emoção foi indescritível de pisar naquele cume, que era como uma forma de retornarmos a uma fase de sorte, que parecia que nos havia abandonado há algum tempo. Foi um recomeço, foi o primeiro cume que fazíamos como dupla de escalada na Patagônia, pois o Gabriel Otero (nosso companheiro argentino) havia caído de um boulder e não tinha previsão de voltar a escalar nesta que se mostrava a melhor temporada jamais vista na Patagônia! Nossos gritos ecoaram pelos cumes e neste momento outras equipes que estavam nas agulhas subjacentes, Saint Exupéry e Poincenot começaram uma sinfonia de uivos. E este grito único era como uma canção entre almas cúmplices, entre indivíduos que têm algo em comum e que refletia a principal face do montanhismo: o companheirismo. Aí foi o momento em que viramos a página, em que carregamos as baterias.



Segundo rapel, corda travada. Um puxão, dois. Quem disse que não é bom escalar com uma dupla a mais na parede? Pedimos para a dupla que estava terminando a via para liberar a corda, ufffffff, que sorte! Depois descobrimos que o casal de chilenos que aí estavam na verdade era um trio, pois a moça estava grávida!! Acho que o médico que a liberou para escalar não entendeu bem o estilo de escalada que eles praticavam... Graças a Deus correu tudo bem e retornamos todos sãos e salvos para nosso acampamento. Pressão estável, previsão de mais dias de bom tempo, altas possibilidades, muitas dúvidas, cansaço, muita alegria... qual vai ser a próxima????
Escaladores: Edemilson Padilha e Valdesir Machado
Patrocínio: SNAKE, Conquista e Território