segunda-feira, 7 de julho de 2008

Um Everest de lixo


Não parece haver ambiente imune à ação destruidora do homem. O lixo, por exemplo, já responde por 70% da poluição marinha. Agora, surge o alerta de que ele também se tornou uma dor de cabeça na montanha mais alta do mundo, o Monte Everest, na fronteira entre a região chinesa do Tibete e o Nepal. Os 60 000 turistas que anualmente visitam a montanha, assim como os 1 300 que tentam a escalada até o cume, deixam pelo caminho dezenas de toneladas de lixo, que inclui desde barracas de acampamento e colchonetes até embalagens plásticas e garrafas de oxigênio. Há duas semanas, o governo chinês anunciou uma megaoperação de limpeza de sua porção do Everest, a ser deflagrada no primeiro semestre de 2009. Ações semelhantes, mas menos ambiciosas, foram realizadas em 2004 e 2005. Os chineses cogitam também limitar o acesso de visitantes à montanha. Hoje, 40 000 pessoas fazem a escalada pelo lado chinês e 20.000 pelo lado nepalês. O Nepal, que não divulga cifras sobre o lixo em sua face do Everest, diz que não pretende limitar o número de turistas.

Para subir o Everest, cada alpinista precisa levar mais de 100 quilos de bagagem – entre roupas, comida e equipamentos. A escalada exige cinco paradas e várias viagens entre elas para levar toda a carga. A primeira parada é feita em acampamentos-base, localizados a cerca de 5 200 metros de altitude – quase o dobro da altura do Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil. Até essa escala, o lixo é recolhido periodicamente pelo governo dos dois países. Depois desse ponto, a sujeira deve ser transportada pelos alpinistas. No entanto, conforme avançam e sofrem os efeitos do ar rarefeito e do frio, eles passam a ter mais dificuldade para carregar peso nas costas. Quando ultrapassam os 8.000 metros e entram na chamada zona da morte, onde o oxigênio se reduz em 70% e a temperatura beira os 30 graus negativos, a preocupação em sobreviver se sobrepõe à consciência ambiental. Então, é comum que aliviem a carga deixando o lixo e os equipamentos pelo caminho.

"Na minha última expedição ao Everest, em 2005, foi difícil tirar fotografias lá do topo sem que aparecessem as garrafas de oxigênio cor de laranja", relata o alpinista brasileiro Waldemar Niclevicz, autor de três livros sobre a montanha. Recolher o lixo deixado ano após ano no Everest não é tarefa fácil. Além de enfrentar a escalada e o clima hostil, muitas vezes é preciso quebrar blocos de gelo para chegar aos objetos descartados. Para financiarem a limpeza da montanha, tanto a China quanto o Nepal cobram de cada grupo de alpinistas uma taxa de lixo reembolsável – respectivamente, de 500 e 4.000 dólares. Se os funcionários dos governos que fiscalizam as expedições constatarem que o lixo foi trazido de volta, o dinheiro é devolvido. Nenhuma dessas medidas, porém, detém o acúmulo de imundície no Everest.

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