sexta-feira, 7 de maio de 2010

No cume do Filhote da Foca nos Cinco Pontões, ES

.Os Cinco Pontões. Foto Vanderlei Zermiani.


Uma das formações mais impressionantes do Espírito Santo é os Cinco Pontões. São grandes torres com formas bem curiosos, e conhecidas como: Foca, Filhote da Foca, Língua de Boi, Pontão Rachado e Pontão Maior. Esse monumento (belíssimo e pouco conhecido) faz a divisa dos municípios de Itaguaçu e Laranja da Terra.


Baldin iniciando o trecho de A2+ da Vr. Fiapo de Lambique, no Filhote.


Entre as décadas de 60 e 70 montanhistas do Rio de Janeiro partiram para a difícil e desafiadora empreitada de fazer a conquista de todos os cumes dos Cinco Pontões. Em uma época em que o acesso até àquela região exigia as vezes dias de viajem pelas longas estradas de terra, e não se dispunha de equipamentos sofisticados como os de hoje em dia. Mas estas dificuldades eram supridas pela disposição e coragem... e até hoje, mais de 30 anos depois destas conquistas, estas vias soam entre a comunidade montanhista como escaladas arrojadas e de comprometimento.


Parafusos de 1996.


"Em 1960 Ricardo Menescal, Drahomir Vrbas, Gilberto Pimentel, Mauro Vilela e Márcio Tomassini fizeram a primeira incursão a um dos conjuntos mais impressionantes e visitados do Espírito Santo: os Cinco Pontões de Afonso Cláudio (ou de Laranja da Terra, após a emancipação), quando atingiram o Pontão Maior pela sua Via Normal, bastante fácil. Os outros quatro pontões, bem como as diversas agulhinhas que se espalham pelo topo do maciço, ainda esperariam muitos anos para serem todos subidos.

De 1970 a 1974, em sucessivas viagens, foi a vez dos demais pontões de Laranja da Terra receberem sua primeira ascensão por grupos de jovens e talentosos escaladores do CEC que incluíram um mito da escalada carioca, Rodolfo Chermont, além de outros nomes de destaque à época. Primeiro foi o Pontão 17 de Julho, uma das pequenas agulhas no topo do maciço, subida por Chermont, Jean-Pierre Von der Weid, Luis "Penacho" Bevilacqua, José Carlos Almeida e Carlos Braga e, em seguida, o famoso Pico da Foca, cuja única via foi, durante muitos anos, a escalada mais difícil do país, além de muito perigosa (hoje amansada por diversos grampos adicionados por cordadas subseqüentes...), obra de Chermont, Braga, Rogério de Oliveira e Augusto Villela. Depois foi a vez do Filhote da Foca, com seu longo teto em artificial móvel, feito por Jean-Pierre, José Carlos, Penacho, Braga e Marcelo Werneck, onde eles sofreram um sério ataque de abelhas e, por fim, a Língua do Boi, basicamente um longo artificial fixo numa montanha cuja base é quase toda negativa, aberto por Jean-Pierre, Penacho, Braga, Werneck e Heckel Capucci."

Trecho de uma matéria de André Ilha para o site Webventure.


Trecho de artificial em parafuso.


Já passaram-se quase 10 anos que visitei os Cinco Pontões pela primeira vez. E como todo montanhista que olhe para aquele monumento, fiquei perplexo e impressionado. Voltei de lá e sai pesquisando em tudo que é canto sobre as escaladas daquelas torres, vasculhando a internet e folheando páginas de boletins antigos dos clubes do RJ. Depois de ler e analizar os relatos das conquistas daqueles picos, lancei-me no objetivo de repetir todas as escaladas dos Cinco Pontões.

O primeiro cume que fiz foi o Pontão Maior (1.260m de altitude) junto com Eduardo Poltronieri 'Filósofo', Elpídio Ambrósio e Marcão. Apesar de ser o mais alto, é o mais fácil de ser atingido, por uma escalada tranquila em um costão de 100 metros. Logo em seguida, junto com Emerson Pedrosa pisei no cume da Língua de Boi, depois de um longo dia de escalada artificial por grampinhos Stubai de 1/4. Depois veio o Pontão 17 de Julho - localizada em cima do Pontão Maior - que fiz com o Filósofo, Damian Sadovsky e Cássio (escalador local, com 15 anos na época). Um cume minúsculo e impressionante, jogado pra fora do paredão a mais de 300 metros. Passado algum tempo chegou a hora da Foca, conhecida por ser uma via bem exposta. Junto com Thiago Ramos pude comprovar esta fama, escalando com cautela por 450m de lances delicados, longos, e protegidos predominantemente pelos Stubai. E parafusos nos artificiais, onde alguns nem tinham mais a cabeça, que cairam de enferrujados. Depois destes cumes o próximo objetivo seria então o Filhote da Foca.

A Foca vista da escalada do Filhote.


Nos relatos das conquistas e repetições o senso comum era de que o Filhote, apesar de ser o menor de todos, era o que tinha a escalada mais complexa. E é fácil compreender o porquê. Ao chegar do embaixo dele depara-se com um teto de 30 metros cortado por uma micro fenda, que foi conquistada em 1973 usando-se muitos pitons. Este é considerado até hoje o maior teto em artificial do Brasil.

Passados 23 anos dessa conquista, em 1996 um grupo do Centro Excursionista Petropolitano formado por Luciano Bender, Jeferson Monteiro, Reinaldo Ivo Rabelais, e o capixaba Magno Santos, conquistaram uma variante que iniciara no corredor entre a Foca e o Filhote. Esta variante, batizada de Fiapo de Lambique (nome como também é conhecida esta montanha pelos moradores locais), ficou com 90 metros de escalada predominantemente em artificial, entre parafusos, e o trecho mais exigente em uma fenda em A2+. Finalizando em um grande platô que une à via original da conquista.


Platô que faz a junção das vias Fiapo de Lambique com a da conquista.


Em agosto de 2008 parti com Marcos Palhares 'Tatu' para a base do Filhote, com o objetivo de fazer a Variante Fiapo de Lambique (deixando o teto para uma investida futura). Uma fenda inicial exigia uma certa atenção para encaixar as peças, devido sua irregularidade interna por ser em cristais. Depois de uma pequena horizontal venci uma barriga negativa com pitons de lâmina, para então entrar no filé da via: uma fenda bem fina, onde os micro nuts fazem a festa, dividindo espaço também com friends pequenos, em um trecho graduado em A2+ que termina em uma parada dupla, finalizando a primeira enfiada em 30 metros. Com o Tatu me assegurando da base mesmo (com corda de 60m é possível) parti para a segunda enfiada, que segue por dentro de uma canaleta vertical em artificial de parafusos, intermediados por chapeletas. Os parafusos de 96 mostraram-se bem conservados, e já que foram fixados com bolts, pareciam estar a prova de bomba! Fui subindo por eles até que cheguei em uma fenda. Analizei, olhei para o rack e tive uma cruelíssima constatação: não tinha friends grandes (camalot #4) que me possibilitassem progredir pelo início dessa fenda. Completamente frustrado - e sem ter mais o que fazer - Tatu tenta me incentivar dizendo que voltaríamos em breve para concluir a escalada. E naquele trecho deixamos uma corda fixa para agilizar o restante da escalada em uma investida futura.


Sandro continuando pela via original.


Em outubro do mesmo ano fizemos uma segunda investida, na companhia do Eduardo Poltronieri 'Filósofo' e Sarah Abner. Ainda no caminho para Itaguaçu me senti mal, e já cheguei na casa do Alemão - aos pés dos Cinco Pontões - péssimo. Uma ziquizira repentina baixou em mim colocando fim naquela tentativa de fazer cume. Mas como lá estávamos, o objetivo foi então de trocar a corda fixa 'boa' que estava na parede, por um bacalhau. E pronto, retorno pra casa sabendo-se lá quando voltaríamos.


Grampinhos Stubai de 1/4, resistindo a 37 anos na parede.


E demorou. Passaram-se um ano e meio para retornar àquela base, e desta vez junto conosco estavam os parceiros de cordada Sandro Souza e Paulo Henrique Munhoz 'PH'. Precentíamos que desta vez pisaríamos no cume do Filhote.

O Sandro partiu jumareando pela corda, que apesar do tempo na parede aparentava estar em boa performance. Quando me juntei a ela na P2, parti para finalizar a pendência que havia deixado a um ano e meio atrás. Agora com as devidas peças no rack progredi pela fenda, que levou a um grampo, e continuou em mais um pequeno trecho em artificial de parafuso, finalizando a enfiada em cima de um grande platô, com uns 50cm de lagura por 10m de comprimento. Pronto, havíamos concluído a primeira repetição da Variante Fiapo de Lambique, depois de 14 anos da conquistada.


A flora e fauna local. Tatu na parede.


Pelas cordas fixas Tatu e PH vinham com as mochilas, enquanto eu e Sandro nos dirigimos para continuar a escalada. Caminhando horizontalmente pelo platô chega-se a um grampo de 1/2 da via original da conquista, por onde a escalada segue até o cume.

O Sandro partiu para guiar, e logo na saída do platô pôde cumprimentar dois grampinhos Stubai de 1/4 em uma passada em artificial. Depois seguiu em livre em uma escalada em cristais, com a predominância das proteções nestes grampinhos que lá estão na parede a mais de 30 anos. Em uma situação destas um lance de 5º grau parece ser bem mais difícil, quando o psicológico insiste em te lembrar o significado da palavra 'exposição'. Mas lá foi o Sandro, escolhendo bem os cristais, aplicando até a técnica do 'brinco de bromélia' para amenizar a mente, e chegou na parada com um grampo único de 1/2 (35m). Uma maravilha!

Baldin conquistando a Vr. Papo Reto, já próximo ao cume.


Parti então para experimentar também um pouco da via original, o que me remeteu à lembranças da escalada da Foca, cujas características são parecidas (mas lá maiores), de lances delicados e longos. Fui conversando com os cristais e cheguei na outra parada (35m), também com um grampão de 1/2 cravado no imenso bloco que forma o cume do Filhote.

O croqui que tinha em mãos não estava condizente com a realidade da via (principalmente o final), o que nos deixou um pouco confusos. Mas percebemos que a via seguia em horizontal para esquerda e entrava em uma fenda, dando assim uma volta para chegar ao cume. Da parada que estávamos avaliamos ser bem óbvio um acesso reto para o cume, vencendo a pequena barriga do bloco. Foi quando optamos em conquistar uma pequena variante. Sai fazendo três furos em cliff e uma chapeleta. Depois um pequeno trecho em livre e concluíamos esta outra alternativa de finalização desta magnífica escalada. Batizamos a pequena variante de 10 metros de "Papo Reto, 4º A1".

Técnica do 'brinco': proteção natural ou psicológica?


Pisamos naquele pequeno e maravilhoso cume quase ao pôr do sol, depois de um dia muito agradável para escalar: nublado e com uma temperatura perfeita.


Livro de cume de 1973.


No livro de cume constatamos que éramos o quarto grupo a fazer a escalada, depois de 37 anos da conquista. Um cume ainda reservado, onde antes de nós apenas 12 pessoas estiveram:

1973 (conquista): Jean-Pierre von der Weid, Luis "Penacho" Bevilacqua, José Carlos Almeida, Carlos Braga e Marcelo Werneck;
1996 (1ª repetição): Luciano Bender, Jeferson Monteiro, Magno Santos e Reinaldo Rabelais;
1997 (2ª repetição): Luiz Gustavo Telles, Ricardo de Moraes;
1997 (3ª repetição): Luiz Gustavo Telles, Ricardo de Moraes, Jean-Pierre e Ivan Calou.


Sandro, PH, Baldin e Tatu, em um cume que esperou por 13 anos para receber uma nova visita.


No cume já não nos preocupamos mais com o horário, queríamos mesmo é curtir ao máximo a energia do lugar. Fizemos o rapel a noite, e o retorno a casa do Alemão se deu por volta das 21h. Felizes, satisfeitos e com um sentimento grandioso de vitória. Assim retornamos pra Vitória pela noite adentro.


Isso sim é um final de escalada em grande estilo!


Espero em breve estar voltando para aquele lugar mágico, e poder fazer o cume do Pontão Rachado, e das agulhinhas: Pitoco do Alemão e Pontão Casagrande. E assim concluir os cumes dos Cinco Pontões.

Mais um daqueles 'videozinhos', com alguns momentos da escalada.




No croqui abaixo consta a Vr. Fiapo de Lambique fazendo junção com a segunda parte da via Original da Conquista, e no final com a opção direta para o cume com a Vr. Papo Reto. Fica faltando no croqui as duas primeiras enfiadas (com o teto) da original, cujo não tenho os dados (ainda).

Clique para ampliar.

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3 comentários:

Anônimo disse...

Parabens a todos que realizaram mais uma repetição da via.

Espero comparecer nas proximas.

Soldado.

Antonio Magevski disse...

Gostei muito da escalada , gostaria de ver as da Pedra Paulista, em breve , até o dia 19.

Baldin disse...

É isso ai Toninho!
Agradecemos a sua força e receptividade... em breve estaremos ai para concluir a conquista na Paulista.
Abç.